terça-feira, 8 de maio de 2018

Escolas adotam o protagonismo como processo educativo na primeira infância

Inspiradas nas escolas italianas, elas praticam a escuta atenta das crianças, valorizam suas potencialidades e deixam de lado uma programação com horários rígidos



Por muitas décadas o sistema de Educação Infantil no Brasil valorizou o ensino tendo como centro a figura do professor. Hoje, esse quadro se inverteu e é a aprendizagem com foco na criança que passa a ser a essência do processo educativo. Nesse contexto de mudança de paradigma, Escolas de Educação Infantil se inspiram em abordagens pedagógicas que valorizam e investem nas potencialidades das crianças.
A ideia de criança protagonista nasceu na cidade de Reggio Emília, na Itália e é baseada na pedagogia do professor Loris Malaguzzi (1920-1994) autor do livro “As Cem linguagens da Criança”.
Trata-se de um conceito que considera as crianças na primeira infância, faixa etária de 0 a 6 anos, como ativas, competentes e que tem voz em seu próprio processo educativo e de desenvolvimento. “O valor pedagógico se dá quando o foco está na criança: como ela se desenvolve, como brinca e se comunica”, explicam Solange Germani e Fabiana Germani, diretoras da Escola de Educação Infantil Cultura da Infância, localizada em Sorocaba, interior de São Paulo.
Entre os princípios que norteiam o cotidiano da escola, que nasceu inspirada na abordagem italiana estão, além do protagonismo, a valorização de todas as linguagens, verbais e não verbais e o investimento em projetos educativos. O brincar livre, a arte e a alimentação saudável também são pontos norteadores do trabalho com as crianças.

O protagonismo na prática: intenção, espaço e materiais

Segundo Solange, quando o educador passa a olhar a criança como protagonista, a relação com ela e o planejamento das propostaspedagógicas se modifica. “O professor não chega com uma atividade pronta, mas propõe projetos baseados nos interesses que as crianças demonstram”, explica.
Para tanto, Solange aponta a necessidade de uma escuta ativa, ou seja, mais do que ouvir as crianças é preciso interpretar o que dizem por meio de suas múltiplas linguagens. “É preciso estarmos atentas e abertas a elas: suas falas, necessidades e maneiras singulares de se comunicar. Afinal, elas têm mais de cem linguagens”, completa Solange.
Ainda que os projetos sejam baseados, majoritariamente, nos interesses das crianças, é necessário que haja planejamento para que se tornem processos educativos ricos em aprendizagem.
Fabiana conta que o planejamento na Escola Cultura da Infância possui três pilares fundamentais: intenção pedagógica,espaços e materiais. “Se a intencionalidade é estimular a interação entre os bebês, por exemplo, o professor organiza um espaço seguro, provocador e disponibiliza os materiais. Enfim, planeja a proposta para que o protagonismo das crianças se faça presente”, explica.
A atelierista da escola, Camila Pedroso foca seu trabalho no livre brincar, dando asas à imaginação infantil. Da mesma forma, faz o professor de Educação Física, Jonathan Monteiro, que é o atelierista de Corpo e Movimento da Escola. Seu trabalho com as crianças é criar situações que as permitam entrar em contato com o próprio corpo, trabalhando equilíbrio e destreza, por meio da brincadeira.
Jonathan cita como exemplo a proposta de colocar à disposição das crianças um trajeto de fitas elásticas como um convite para transpassá-las. “Em nenhum momento existe uma instrução de como ou do que fazer. Montamos a proposta com uma intenção, mas as crianças, de todas as idades, vão explorar à maneira e no tempo delas”, diz.
Por falar em tempo, a duração das propostas nessa abordagem é flexível, deixando de lado uma programação com horários rígidos porque o foco é sempre a criança.

Competências sociais e emocionais

Solange comenta que, ao encorajadas a serem protagonistas, as crianças desenvolvem competências, sociais e emocionais,importantes para a vida adulta. O brincar livre da criança protagonista, segundo ela, possibilita o desenvolvimento de habilidades como inteligência emocional, capacidade de concentração, argumentação e de autonomia, por exemplo. “A criança é estimulada a tomar pequenas decisões, a resolver pequenos problemas e conflitos”, finaliza.
O propósito maior das escolas que se inspiram nessa abordagem é que as crianças possam viver a infância na sua plenitude por meio de um currículo de possibilidades. Enfim, é resgatar a cultura da infância para o cotidiano e práticas educativas.